Como lidar com a frustração dos filhos?

Certa vez, quando estava grávida, fui passear com o meu cachorro e entrei em uma loja com o bichinho. Bem, bichinho é forma carinhosa, pois Lucky é um golden retriever enorme e muito forte. Muito manso, mas extremamente atrapalhado e ciumento. Acha que é um pincher, ou algo do gênero: tenta subir nas pessoas, sejam adultos ou crianças, derruba crianças com o balançar do rabo, não gosta que se aproximem de mim na rua. Apesar de saber muito bem como controlar meu bichinho, evito que crianças e adultos desconhecidos brinquem ou passem a mão nele na rua. Especialmente em situações nas quais ele fica tenso e, obviamente, ainda mais atrapalhado, como dentro de uma loja de enfeites. Como já me conheciam na loja, as funcionárias simplesmente ignoravam ele. Mas chegou uma menina de uns 4 anos e perguntou: posso passar a mão nele?

Gentil, abaixei, disse que não e expliquei: ele era grande e poderia derrubá-la, pois iria querer brincar. A menina foi embora. Logo depois, chegou a mãe da menina, muito nervosa, puxando a criança (que, na verdade, estava bem tranquila) pela mão. “Quem você pensa que é para não deixar a minha filha passar a mão no cachorro? Ela ficou frustrada! Você frustrou a minha filha”! Achei aquela indagação tão descabida, que tive vontade de dar as costas e ir embora. Mas respondi o seguinte: “Minha senhora, se eu falei que ela não podia, tive motivos: meu cachorro é atrapalhado e pode se empolgar e derrubar facilmente sua filha ou bagunçar toda a loja, que já é pequena. Sem contar que, às vezes, ele fica bravo. Decidi que era melhor não correr o risco. Além disso, é bom que a sua filha aprenda a lidar com as frustrações: as mães ensinam a lidar com isso com o amor. A vida vai frustrar sua filha inúmeras vezes, e a vida, normalmente, ensina pela dor”. E ela olhou para mim com muita raiva e disse: “Quando o seu filho nascer, você vai mudar de opinião”. E eu apenas pensei: “Veremos”.

Fiquei com isso na cabeça. Nunca tinha pensado em como seria quando o Enzo nascesse. Em como falaria “não” para ele ou como o ajudaria a lidar com quando as coisas não saíssem da forma que ele desejava. Mas eu tinha uma certeza: eu o ajudaria com isso. A vida nos frustra o tempo inteiro. Embora possamos controlar muitos aspectos da nossa vida, não temos como fazer isso com a maioria das coisas que acontece ao nosso redor. E não é raro algo sair fora do que esperamos ou desejamos – na verdade, acho que essa é a rotina. Acho que é muito importante aprender a lidar com isso desde criança, pois é algo inevitável. A frustração não deve ser algo ruim. Deve ser algo que nos sirva de incentivo para tentar de novo. E de novo. E de novo, quantas vezes for necessário.

Por isso, sempre que digo que não pode, eu digo com amor, como já falei no texto Como falar “não” com amor. Acho que mães devem ensinar com amor. Pela dor, já basta a vida. E quando meu filho fica frustrado porque não consegue algo, eu procuro agir naturalmente. Sorrio para ele e digo: “vamos tentar de novo? Vamos fazer outra vez? Sei que se você tentar, você consegue”. Afinal, as melhores coisas da nossa vida são fruto do nosso esforço. De nossas tentativas, de nossa persistência. E errar, especialmente quando se tenta acertar, não é nada de mais. Acontece o tempo todo com nós, adultos, e muito mais com as crianças.

E quando a questão não trata de um erro, mas de algo que não é possível, como uma coisa que machucará a criança, um brinquedo muito caro ou fora de época (aqui em casa, os presentes são apenas em datas como Natal e aniversário), uma coisa que quebra, a frustração causada pelo “não” não deve ser algo ruim. Afinal, eu estou tirando aquilo dele para o seu próprio bem, é um ato de carinho, preocupação e uma forma de educar. Especialmente para as crianças, que geralmente precisam ouvir que “não pode” umas 200 vezes ao dia. Por isso, eu procuro dar o mínimo de importância ao “impossível” e valorizar o que ele pode fazer.

Falo tudo isso porque procuro criar o meu filho tratando-o como gostaria de ser tratada, sempre com empatia.

Aliás, tem um vídeo ótimo sobre isso:

Então, mãe que ficou brava comigo na loja, eu não mudei de ideia. Pelo contrário: é preciso, sim, ensinar nossos filhos a lidar com as frustrações. E isso se faz conversando com os filhos, não tirando satisfações com estranhos.

E você? Como ajuda o seu filho a lidar com as frustrações?

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5 pensamentos sobre “Como lidar com a frustração dos filhos?

  1. Eu acredito que, o fato de eu não saber lidar com a frustração hoje sendo adulta, é porque não me ensinaram isso quando criança, deixando tudo, sendo bem permissivos, apesar de eu não me recordar.
    Não concordei com sua atitude pois achei grosseira. E eu digo isso como mãe, porque hoje eu “falaria com amor” com a minha filha que não, que não poderia. Antes de ser mãe, provavelmente eu seria mais seca e buenas. Mas também, não acho que a responsabilidade de “ser amoroso” seria sua, por não ser responsa´vel pela criança 😛

    Me fiz entender?rs
    Beijos

    • Isabela, tudo bom? Obrigada por comentar! Acho que eu que não me fiz entender. Eu não deixei a criança passar a mão no cachorro justamente porque ele é meio imprevisível e poderia, facilmente, derrubar a menina. Quem veio gritando comigo na loja foi a mãe, eu tinha falado numa boa com a criança. Mas ela ficou revoltada justamente porque a filha dela ficou frustrada… A frustração não é algo necessariamente ruim. Vou editar o texto para corrigir isso. Beijos!

  2. Achei que a mãe reagiu com mais frustração do que a filha, dando assim um péssimo exemplo para filha.
    Tenho um filho de 1ano e 1 mês, ele se irrita por qualquer coisa e comeca a gritar quando não consegue o que quer, falo que não pode, é da mamãe, faz dodoi… enfim as vezes não sei o que fazer.

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