No meio do caminho – Relato de parto natural

Esse relato emocionante é de uma pessoa muito linda e especialmente determinada, mas que prefere não se identificar. Simplesmente não tenho como descrever a minha admiração por essa mulher, não apenas pelo parto, mas por todas as batalhas que ela trava com uma serenidade invejável e pela forma linda como vê a vida.

No meio do caminho….

— Deixei o dia 12 dezembro livre pra você escolher o horário. 38 semanas e 5 dias já está bom! Ah, você quer esperar o normal, né? Sabia que dos 4 partos que eu tenho até o final do ano você é a única que não agendou? Pelo exame de toque seu colo tá fechado. Sem dilatação..
— Vou ter parto normal sim. Inclusive essa foi minha última consulta com você. Eu achei um profissional que faz parto normal. Vou até deixar o cartão dele com você, caso alguma paciente sua pergunte…
Estava de 37 semanas. Era começo de dezembro de 2012.
Na quarta, dia 12/12/12, comecei a sentir fortes dores nas costas. Tinha uma consulta naquele dia. O médico me examinou e disse que não era trabalho de parto. Pediu para eu ficar ativa. Senti muitas dores quarta à noite e quinta, o dia todo. Na madrugada de quinta para sexta fui para a maternidade fazer um ultrassom do rim. O plantonista não achou a nada no ultrassom e me mandou de volta para casa.
A dor não passava. Só a água muito quente aliviava, mas mesmo assim estava difícil.
Sábado de manhã meu marido ligou para o médico que disse que eu poderia estar em trabalho de parto e achando que era pedra no rim. Fomos até a maternidade. Me examinaram: zero de dilatação. Me deram soquinhos nas costas: pedra no rim. Tirei a sorte grande: cálculo renal com 39 semanas de gestação. A médica plantonista disse que meu obstetra havia me liberado para voltar para casa (oba!) mas o urologista não! Só teria alta após resolver o problema do rim. Confesso, eu gostei! Estava muito quente e ar condicionado, comida e repouso era o que eu queria. Fui internada em 15/12.
Durante os dias da internação eu tentava me movimentar e andar pelo hospital. Mas não é fácil andar com pedra no rim.
Na terça, dia 18, começamos a indução. Eu fiquei na dúvida se a intervenção era realmente o que eu queria, mas eu tinha passado do meu limite. Não dormia direito por causa das dores havia 6 dias. Estava muito cansada e na dúvida se eu tinha energia para um trabalho de parto. Eu não estava tomando analgésicos para a cólica renal. Alguns comprimidos eu tomava, mas entre doer 10 e 9,5, preferia doer 10 e não ter medicamentos no meu organismo.
Aqui, realmente, começa meu trabalho de parto! Desculpe-me por fazer você ler os preparativos. 🙂
A indução foi feita por comprimido via vaginal. O primeiro foi na terça, ao meio dia. O segundo, às 18 horas. O terceiro, à meia-noite. Na madrugada, as dores do rim estavam insuportáveis. Talvez porque eu estava andando muito para entrar logo em trabalho de parto. Não conseguia dormir. Vomitava de tanta dor. Às seis da manhã, na hora do quarto comprimido da indução eu estava com 4 centímetros de dilatação!

– Enfermeira, com 4 centímetros eu posso entrar na sala de parto e ficar na banheira, né?

– Ah, poder pode, mas você quer ir mesmo? Porque pode ser que demore..

– Poxa, você tá aqui me vendo todos esses dias lutando pelo meu parto! Eu só quero uma banheira quente… Só aliviar um pouco essa dor no rim!

– Você está certa! Veste a camisola que a gente vai descer!

Cheguei na sala às 7 da manhã do dia 19 de dezembro. A dor no rim era tão grande que a enfermeira não acreditou quando viu a intensidade das contrações. Eu não estava sentindo nada além da dor no rim. Entrei na banheira logo em seguida! A água quente fez a dor do rim ir embora! E eu finalmente senti as contrações! Quanta alegria sentir as contrações. As dez primeiras foram divertidas, mas depois começaram a doer de verdade. Comecei a me concentrar, a pensar em coisas boas, e estava conseguindo administrar as dores das contrações.

De repente veio uma vontade de fazer cocô! Eu estava há 6 dias sem fazer cocô! A enfermeira, super acostumada com partos normais, se assustou quando me viu na privada! Disse para eu não fazer força pois eu poderia derrubar meu bebê na privada! Eu falei pra ela ficar tranquila que eu iria segurar, caso meu bebê resolvesse sair… Fizeram exame de toque: 8 centímetros! Eram 8:30 da manhã!

Tinha combinado com a doula que eu talvez não iria precisar dela. Ela disse que passaria para me visitar na quarta de manhã, pois tinha um compromisso lá perto. Ela me ligou no meio do trabalho de parto! Pedi para meu marido explicar que como eu já estava com quase dilatação total, ela não precisaria vir!

Continuei na banheira até o médico chegar. Não lembro os horários, mas ele chegou rápido! Ele pediu para eu sentar na cadeira de parto, mas ele colocou a cadeira em cima da cama e estava difícil de eu me equilibrar na cadeira! A dor no rim voltou com força e minha pernas adormeceram. Já não tinha mais forças para me sustentar na cadeira! A doula apareceu. Disse que sentiu que eu precisava dela! Ela fez massagem e a dor deu uma aliviada, mas eu não tinha mais forças nas pernas. Elas estavam adormecidas e fracas! Fiquei semi sentada, com as pernas nos apoios. O médico ficou sentado longe, desmarcando os compromissos pelo celular. De tempos em tempos ele escutava os batimentos da nenê e dizia “Você está indo bem querida! Logo mais a gente vê sua nenê”! Ele sugeriu de estourar a bolsa! Eu não queria intervenções, mas achei que era preciso acelerar o trabalho de parto. Eu estava esgotada! Ele estourou a bolsa! Continuei semi sentada mas já não conseguia ficar com as pernas nos apoios! A faixa do cardiotoco apertava muito, e meu rim parecia que estava explodindo! A doula sugeriu de segurar minha perna nem tão alta e nem tão baixa! Ficou perfeito! Conseguia sentir a nenê passando pelos ossos! Deu muita aflição sentir a cabeça da minha filha abrindo meu osso, mas isso renovou minhas energias! A doula segurando uma perna, meu marido a outra e o doutor longe, só observando.

As dores do rim mais a do parto estavam muito fortes! Pedi silêncio absoluto e eu consegui administrar a dor apenas me concentrando no parto! Não adianta ter gente conversando do lado nessas horas! Eu só consegui me concentrar com silêncio total! Eu estava esgotada! Qualquer movimento era dolorido demais! Nas contrações eu fazia força, fora delas eu respirava lentamente e tentava esquecer da dor! O médico sugeriu de puxar a nenê com um vácuo! Eu recusei! Ele insistiu e eu pedi para ele monitorar a bebê! Ele monitorou e disse que ela estava ótima! Perguntei para a doula “Você acha que precisa usar esse treco?” “Não, você consegue sem!”. Respondi pro doutor “Já que a nenê está ótima, eu não quero usar o vácuo agora! Vamos esperar um pouco mais… “. Fiquei fazendo muita força, mas eu sabia que a posição quase deitada não é favorável!

Eu estava exausta de tanto fazer força! Comecei a pensar que pudesse ser um bloqueio psicológico! Eu falava: “Filha, a mamãe tá pronta te esperando! Vem pra mamãe, nenê”!. Partolândia: Eu fui! Comecei a imaginar a nenê no meu colo, ela me olhando… E as dores lá, cada vez mais fortes… Eu tentava não fazer força nas contrações, porque eu estava exausta, mas é instinto. Se não fizer força você sente muita dor. Se fizer força não dói! Eu queria não fazer força para descansar, e conseguir fazer uma mega ultra blaster força na contração seguinte, mas não é bem assim que funciona..

De repente colocaram uns panos azuis em cima de mim! Eu já tinha lido sobre a preparação para a chegada do bebê, mas na hora eu não entendi! A doula me disse “Você conseguiu! Sua nenê tá chegando! ” Eu estava exausta de dor, de cansaço, de tanto fazer força! “Opa, uma circular! Uma não! São duas circulares!”. Abri os olhos e vi meu marido sorrindo “Tá tudo bem?” e ele “Ela é linda! Tá só a cabecinha de fora!”. Fechei os olhos e fiz a última força! Gritos e mais gritos! Ela nasceu! É linda! E eu de olhos fechados, ouvindo lá longe os gritos…

Demorei alguns segundos para abrir os olhos! Vi meu marido chorando com o sorriso mais lindo do mundo! Ele disse que nunca tinha visto nada tão lindo quanto a nossa bochechuda! Olhei para ela nas mãos dos médicos! Não tivemos condições de contratar uma equipe particular! Nem de obstetra, nem de pediatria! Tudo pelo convênio! A nenê saiu de mim, teve o cordão cortado ainda pulsando e foi para a mesa aquecida! O médico começou a retirar a placenta. Olhei para o lado e vi a balança: 3810!

Era meio dia, e a nenê veio para meu colo! O médico terminou a retirada da placenta e deu alguns pontos pois houve laceração. A doula me auxiliou na mamada. O almoço chegou e meu marido me serviu enquanto eu amamentava! Ficamos assim por uma hora! Eu pedi para sair da sala de parto o quanto antes, pois queria que a sala estivesse livre para o próximo parto!

Tudo foi pelo convênio, exceto a doula! Eu dei muita sorte e não recomendo ninguém fazer essa loucura! Fiquei sabendo que o médico não faz mais partos pelo convênio e que ele costuma fazer intervenções! Eu estava de acordo com as intervenções que sofri: indução, bolsa estourada e retirada manual da placenta. Eu preferia que a placenta saísse naturalmente, que o cordão fosse cortado tardiamente, que os procedimentos de rotina só fossem feitos na minha nenê se houvesse realmente uma justificativa.. Mas fiquei feliz com o resultado!

Eu senti muita dor durante o trabalho de parto! A dor de uma cólica renal é nível 10! A dor do parto nível 8 e qualquer outra dor que eu já senti começa no nível 6! Mas enfrentar a dor é um exercício psicológico! É diferente sentir dor e sofrer! Eu não sofri em nenhum momento! Fiquei cansada, esgotada, passei de todos os meus limites! Meu corpo tremia depois do parto de tanta força que eu fiz! Mas em nenhum momento eu sofri!

Na manhã seguinte do parto eu fiz uma tomografia: não havia pedra no rim. O urologista já havia me dito que é comum a pedra ser expelida durante o trabalho de parto!

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)

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