O parto roubado da Carolina

Pessoal, tudo bom? Depois da publicação da minha carta recebi vários relatos de falta de respeito e violência durante o parto. Um desses foi o da Carolina, relato que você acompanhará agora e que conta que, mesmo quando tudo é planejado, as coisas podem sair terrivelmente do controle.

Meu nome é Carolina. Tenho 26 anos e um filho lindo e saudável de quase um aninho. Li a sua carta à médica e me emocionei muito mesmo. Eu me identifiquei demais com a sua história, você conseguiu transcrever nesta carta os meus sentimentos de uma mãe que teve seu parto ROUBADO! Achei que estava só neste sentimento dolorido.

Decidi compartilhar minha histórica. Acredito que poderá ajudar outras mulheres não serem enganadas.
Minha gravidez foi muito desejada por mim e pelo meu marido, decidimos engravidar em 2011, parei de tomar anticoncepcional em Junho/2011 fiz exames ginecológicos para ver se estava tudo bem comigo. Tentamos ansiosamente por 5 meses e foi então que, em Janeiro de 2012, descobri que nosso filho  estava a caminho! Uma felicidade sem tamanho!
Daí então, muito consciente do que eu queria para nós, comecei a me informar sobre parto humanizado. Fomos visitar duas casas de parto. E uma delas, na zona sul, teríamos que desembolsar R$ 2.500,00 (me arrependo até hoje de não ter feito um esforço e pago este valor). A outra, na zona leste, não precisaríamos pagar nada, pois era do SUS. Ficamos encantados com o lugar que parecia acolhedor e super a favor das mamães que queriam trazer seu filho ao mundo com respeito. Decidimos, então, que nosso filho nasceria lá.
Fiz meu pré-natal com uma médica cesarista de carteirinha, mas como tinha certeza que ela não “faria” meu parto nem me preocupei e nem mesmo falei para ela do meu plano “louco” (na cabeça de muitos) de ter meu bebê em uma casa de parto.
Minha gravidez foi maravilhosa não tive nenhuma intercorrência, me  cuidava certinho, fazia todos os exames, engordei apenas 10 kg.
Entrei de Licença Maternidade na 38º semana de gestação (10/09/2012)…Ufa!.. como trabalho longe de casa, já estava ficando penoso pegar dois ônibus para fazer um trajeto de uma hora e meia.
A esta altura eu já fazia acompanhamento uma vez por semana na casa de parto e estava muito feliz pelo jeito que as coisas estavam se encaminhando. Foi então que, em uma consulta da 38º semana, a enfermeira me examinou e fez um cara dizendo que eu tinha o colo posterior e apenas 1 cm de dilatação (Hoje eu penso: Clarooo né! Eu não estava em trabalho de parto ainda!) o que desanimou um pouco, apesar de já estar perdendo o tampão mucoso.  
Comecei a trabalhar para meu corpo se preparar para o parto. Andava pelo bairro, tomava chá de canela, relaxava e mentalizava no meu filhote, conversava com ele e dizia como eu queria ver a carinha dele.
No dia 17/09, por volta das 22:00, fui levantar do sofá para ir para cama e…. CHUÁÁÁ…. minha bolsa rompeu…Não tinha me preparado para começar assim… Sempre me imaginei começando com contraçõezinhas assim por diante… Fui tomar um banho e meu marido foi pegar o carro na casa da minha mãe. Fomos para a casa de parto e chegando lá, era o plantão de uma enfermeira que eu nunca tinha visto. Ela confirmou o rompimento da bolsa, fez o exame de toque e constatou 1,5 cm de dilatação e colo posterior. Me jogou um balde de água fria dizendo que não poderia ficar comigo lá e que era para eu ir para um hospital (hein???!!!) Eu entrei em pânico! Não tinha cogitado essa situação e sabia como seria tratada no hospital! Mas ela fez uma cara de preocupada e disse que não era para voltar para casa de jeito nenhum (apesar de estar tudo bem comigo e com meu filho) e essa preocupação tomou conta de mim e do meu marido!
Fomos para o hospital e chegando lá…Fui super maltratada na recepção fiquei esperando ser atendida como se fosse qualquer outro paciente! Hello?!!! Eu não estava com gripe, e sim com minha bolsa rompida vazando água pelo corredor..kkk
Mas… Enfim fui atendida por um médico plantonista que confirmou a dilatação e bolsa rota… Mandou me internar para ver se meu TP ia engrenar e aí começou minha saga de desrespeito…. Fui deitada em uma maca (eu não estava doente dá licença?) para uma sala que nem era sala de pré-parto, pois a mesma estava em reforma e SEM O MEU MARIDO DO LADO! Isso me desestabilizou muito! Só depois que eu fui lembrar que tem uma lei que exige que a parturiente tenha um acompanhante no pré parto.
A enfermeira do plantão me recebeu e já foi logo me desestimulando dizendo que era muito difícil o parto evoluir assim … e patátá…e blá blá blá… Tentei me focar e não desistir… Andava pra lá e pra cá de pró-pé e com a bunda de fora com aquele avental humilhante! E ela com aquela cara de: “ O que esta maluca está fazendo”? Me pedia para descansar toda hora. Gente, eu tinha que usar o banheiro dos funcionários quando tinha que fazer xixi… E todo mundo me olhava com aquela cara de: “Nossa, coitadinha, é uma maluquinha mesmo…tá achando que vai parir normal”.
Fiquei assim a madrugada inteirinha até a troca de plantão (7 horas da manhã). Quando outra enfermeira assumiu o plantão, veio conhecer a doidinha que queria ter parto normal. Fez outro toque e tharãmmmm… Ainda 2 cm de dilatação! Meu DEUS! Nessa hora eu já estava com uma certa dor e tanto desencorajamento seguido na madrugada toda estava me fazendo desistir. Eu só pensava: “Cadê meu marido”? Depois de um tempo a enfermeira veio e disse:  “Sua cesárea está marcada para as 9:00. Minha alma chorou e sangrou.
A droga da sala de pré parto improvisada, na verdade, era uma sala de pré e pós operatório (tudo junto e misturado). Tinha criança, idosos e tudo o que você pode imaginar aguardando uma cirurgia… E eu lá, exposta e com dor. Me senti um animal acuado, com tantos olhares me rondando, e a dor aumentava! Estava sem comer, com sede, deitada de barriga para cima numa maca super desconfortável!
A minha dor estava aumentando mais e mais aí a enfermeira veio me examinar de novo para ver porque eu estava gemendo tanto… e daí…3,5 cm… Nossa eu estava dilatando… Me enchi de esperança e desabafei com ela dizia que queria parto normal eu pedi encarecidamente sua ajuda! E ela me olhou nos olhos e disse: “Sim eu te ajudo. Vou te levar para o chuveiro e chamar seu marido aqui um pouquinho”. Chamou dois plantonistas que me examinaram (DE NOVO! Gente, depois que a bolsa rompe não pode mais ficar fazendo toque toda hora) e prescreveram OCITOCINA e ANTIBIÓTICOS e desmarcaram a cesária.
Essa ajudinha me desestabilizou mais ainda minhas dores ficaram insuportáveis eu tinha vontade de andar e de me esconder em um cantinho sozinha como fazem as cadelas e as gatas antes de parir… e novamente eu via todo mundo me olhando com cara de dó… Isso me tirava as forças… E cada vez mais eu perdia a confiança no meu corpo… até que que… no delírio da dor, PEDI POR UMA CESÁRIA… Eles me forçaram a fazer isto… me levaram para uma sala de pré-parto em reforma!
E lá fiquei aguardando sozinha e isolada a minha hora da cesária. Eu não tinha ação nenhuma nem voz ativa para reivindicar algo… Me senti muito frágil.
A esta altura você deve estar se perguntando: cadê a enfermeira que ia me ajudar? Bem, ela simplesmente SUMIU! Eu perguntava por ela (Lembro até hoje o nome dela) e todos diziam: “A Fulana tá ocupada”!
A médica que me examinou passou perto de mim e eu disse: Dra. eu estou com muita dor e ela delicadamente me respondeu: “Parto normal dói mesmo, ninguém te avisou não”? E saiu.
Depois, outra enfermeira impaciente porque eu estava gemendo de dor, me falou rispidamente: “Deixa eu te examinar”. E eu falei: “Eu vou para a cesária? Estou com uma contração bem agora”. E ela, me obrigando, falou: “Deixa eu ver! Quer que seu filho nasça aqui”? E eu resignada, abri as pernas e deixei ser examinada (MAIS UMA VEZ). Perdi as contas de quantas pessoas já tinham enfiado a mão lá. E, para minha surpresa, 5 cm…
Por volta das 14:30, fui levada para a sala cirúrgica por médicos que nem perguntaram meu nome. Queriam mesmo é “fazer” logo meu parto e seguir com o plantão (vocês acreditam que eu não sei o nome da médica que fez meu parto?). Em 10 minutos fui anestesiada e as contrações se foram. Não sentia mais minhas pernas. Mas meu coração doía… Estava muito confusa, parecia no momento que eu estava fazendo a coisa certa.
Logo meu marido chegou e ficou do meu lado… subiu o pano azul na minha frente… senti o cheiro de carne queimada… senti uma chacoalhada, e antes mesmo de sair todo seu corpinho de meu ventre, escutei o choro do meu filho… Acho que ele também não estava preparado. Nasceu às 14:59.
Me mostraram ele rapidamente… lindo e saudável! Mais ainda do que eu imaginava. Parou de chorar quando escutou a voz do papai.
Ele foi levado ao berçário junto foi o meu marido.  E depois de ser costurada fui para uma sala de recuperação. Como eu tremia de frio (acho que era de frio, sei lá) e depois de umas 2 horas fui para o quarto.
Bom, o desrespeito continua. O cara da maca queria que eu pulasse da maca para cama sem ajuda. Isso porque eu ainda não estava sentindo minhas pernas e estava com um puta corte recém aberto e fechado na minha barriga!!!
E ainda continua o desrespeito. Era 9 horas da noite e eu perguntei:  Vocês não vão trazer meu filho para mamar? E outra enfermeira me responde: “Calma! você vai ter muito tempo para ficar com seu filho”! Genteee posso com isso?
A minha amamentação também não foi orientada no hospital. Resultado: Bico rachado + Mastite (das bravas). Mas, com muita luta, amamento até hoje! (Isso é um capitulo à parte!)
* Detalhe este hospital não é público não viu! Preferia ter ido parir no público!
Dói muito contar essa história, mas vejo também como um modo de exorcizar estes fantasmas que me rodeiam e de abrir o olho de outras mulheres que não desejam de seu parto roubado.
Eu ainda tenho o sonho de parir com respeito e tento encarar essa experiência que eu passei como um aprendizado, como algo que me fortaleceu como mulher, pois eu pelo menos tentei ir contra o sistema e não deixei que marcassem o dia do meu parto.
O próximo vai ser parido em casa!!!
Obrigada por ler minha saga!
Carolina Moreira
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5 pensamentos sobre “O parto roubado da Carolina

  1. Carolina por favor me mande por e-mail o nome das maternidades ruins de SP, principalmente a que voce foi atendida, pois eu sou do interior, acabei de descobrir que estou gravida e na verdade nao quero parir aqui em SP, mas se não tiver outra opção que ao menos eu saiba onde ir ter meu bebe de forma normal. Já tenho um bebe de parto normal e fui muito bem atendida para isso na minha cidade.

    • Olá fada! Me passa seu email daí a gente conversa. Um conselho de amiga: Não confie em nenhuma maternidade! E sim no profissional que vai t acompanhar no parto isso t dará maior garantia de que seu plano de parto será respeitado. Meu email é carolina_mor@ig.com.br.
      Bjsss
      Carol

  2. Carolina, posso compartilhar seu relato no face ??? Acho que quanto mais gente ler, melhor, as mulheres precisam saber ao que elas podem ser submetidas nos hospitais. Passei por uma situação bem parecida no parto da minha filha há 4 meses no Hospital Santa Joana. Sinto uma vontade enorme de lutar para que outras mulheres não passem por isso e acho que se eu engravidar de novo, vou fugir para parir no meio do mato porque não vejo alternativa… Dói demais esse desrespeito que vivemos, me senti em um açougue e não numa maternidade.Eu me emociono muito quando leio esses relatos.

  3. Olá Vanessa! Sinto muito pela sua dor e compartilho ela com vc. Pode publicar meu relato no face sim. Espero que um dia nenhuma mulher precise mais passar por isso. bjs

  4. Pingback: Ministério Público Federal abre inquérito para investigar denúncias de Violência Obstétrica | Papai, tá perdido?

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